Depois de viver uma das fases mais turbulentas de sua história recente com a falta de semicondutores durante a pandemia, o setor automotivo volta a observar o mercado de chips com cautela. Desta vez, o alerta não vem de problemas logísticos ou sanitários, mas sim do crescimento acelerado da inteligência artificial, que tem consumido capacidade produtiva das fabricantes de componentes eletrônicos em tempo recorde.
A explosão de aplicações de IA, especialmente em data centers, serviços em nuvem e sistemas de aprendizado de máquina, elevou a procura por processadores de alto desempenho e chips especializados. Empresas de tecnologia, que operam com margens de lucro maiores e volumes bilionários de investimento, passaram a disputar a produção das principais fundições do mundo.
Esse movimento recente pode gerar um efeito colateral direto para as montadoras. Como os carros modernos que dependem de dezenas, e às vezes centenas, de semicondutores para gerenciar desde a central multimídia até sistemas de segurança e assistência à condução, qualquer restrição no fornecimento tende a afetar prazos de produção e entrega.
O cenário lembra o que ocorreu entre 2020 e 2022, quando a escassez global de componentes forçou paralisações de fábricas, cortes de turnos e filas de espera para veículos novos. Na época, modelos foram lançados sem determinados equipamentos ou tiveram funcionalidades temporariamente removidas para contornar a falta de peças.
A diferença agora é que a pressão não vem de uma interrupção inesperada, mas de uma mudança estrutural na demanda. Com a corrida das I.As apenas começando, empresas de tecnologia tendem a continuar absorvendo grande parte da capacidade das fundições, o que pode tornar os chips automotivos menos atrativos financeiramente.
Diante desse risco, algumas montadoras já estudam estratégias para reduzir a dependência, como contratos de longo prazo com fornecedores, estoques maiores de segurança até o desenvolvimento de semicondutores próprios ou plataformas eletrônicas mais padronizadas. A ideia é evitar repetir a vulnerabilidade exposta na crise recente.
Se a tendência se confirmar, a próxima escassez de chips pode não ter origem em um evento extraordinário, mas sim na competição direta com um dos setores mais lucrativos da atualidade. Para a indústria automotiva, isso significa que a disputa por tecnologia deixará de ser apenas por inovação e passará também pela garantia de acesso a esses componentes para manter as linhas de montagem em funcionamento.
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