É possível ter um carro elétrico sem carregar em casa? Com a popularização de veículos com essa tecnologia, essa pergunta é cada vez mais frequente. Honestamente, confesso que não gostaria de levar a avaliação do Leapmotor C10 por esse caminho, mas, por já ter avaliado a versão REEV (com extensor de alcance), e principalmente por ter recebido o carro sem carregador portátil e com pouca bateria, o foco da avaliação será na experiência de um usuário.
O primeiro momento com o C10 BEV foi de familiaridade, isto porque o modelo é exatamente idêntico ao irmão híbrido, até mesmo na propulsão, já que ambos se movem exclusivamente com tração elétrica.
A primeira parte da experiência significava sair da concessionária na Barra da Tijuca e ir até o aeroporto Santos Dumont, e no dia seguinte pegar o carro e voltar para casa. Contudo, ao deixar o carro no aeroporto, percebi que o mesmo não estava com o “carregador de emergência” (aquele que é plugado em tomadas domésticas) e o alcance era um pouco além do suficiente para chegar em casa.
Por sorte, havia um grande posto de recarga perto. Após retornar de viagem parti para o endereço pensando justamente em ter bateria suficiente para chegar em casa com segurança. Na Cinelândia (Centro do Rio de Janewiro), há um eletroposto com pelo menos uns 10 carregadores rápidos com dois plugs cada, além de vários equipamentos do tipo wallbox de recarga mais lenta.
O eletroposto é localizado em um estacionamento subterrâneo, o que por si só já garante segurança, especialmente em uma zona perigosa do Rio de Janeiro, mas há ainda estrutura básica como banheiro, água e café disponíveis.
Encontrar o eletroposto é fácil, uma vez que está disponível em aplicativos como o plugshare, mas para realizar a recarga é necessário baixar o aplicativo da Zletric (operadora do eletroposto) para desbloquear o carregador, adicionar os créditos e iniciar a recarga.
Nesse caso, havia Wi-Fi disponível gratuitamente para realizar download e login no aplicativo. Esse processo, inclusive, se tornará algo corriqueiro para quem não tem carregador em casa e precisa procurar por carregadores.
Cheguei ao carregador com cerca de 28% de bateria e em apenas 23,59 minutos, o Leapmotor C10 recebeu 27,32 kWh de energia, aumentando para 67% o nível de bateria disponível e com alcance superior aos 225 km.
Isso custou R$ 59,32 mais os R$ 2,50 necessários para desbloquear o aparelho, porém, foi necessário adicionar 60 reais em créditos à conta no aplicativo Zletric.
Após usar o carro por alguns dias, foi necessário realizar outra recarga. Dessa vez, com a bateria bem próxima do mínimo, o aplicativo indicava carregadores próximos, mas não havia certeza de que estariam funcionando.
O veículo exibia apenas 36 km de alcance, a luz amarela de bateria indicava a necessidade de recarga. Não senti limitação na potência, mas o sistema do carro recomendava usar o modo eco e desativar o ar-condicionado.
Ao chegar no eletroposto, localizado de forma quase improvisada em um posto de gasolina, foi necessário baixar outro aplicativo, dessa vez o Tupi recarga. No carregador em questão, os custos eram mais caros e o equipamento mais lento (160 kW). Em 16 minutos de recarga, 20,43 kWh foram adicionados às baterias.
No primeiro caso, desconsiderando o custo de ativação, cada kWh custou R$ 2,17, enquanto na segunda recarga, o custo subiu para R$ 2,39. Carregando em casa, o custo máximo seria de 1,33 por kWh, ou seja, bem mais em conta.
Para além do preço, o pior problema de não contar com um carregador doméstico, mesmo o tipo mais lento, é que não há certeza de que o carregador indicado pelo aplicativo estará funcionando, e se estiver, pode estar ocupado.
Geralmente, não é um problema aguardar para recarregar o carro, contudo, se o local não for seguro, ou não houver uma loja de conveniência por perto, o proprietário pode ficar exposto. Carros elétricos ainda são caros (R$ 204.990 no caso do C10 BEV) e ficar exposto pode atrair assaltantes e causar prejuízos financeiros, no mínimo.
Há ainda o “range anxiety”, traduzida literalmente como “ansiedade de alcance” que nada mais é do que o medo de não chegar ao destino com a energia disponível. Confesso que passei por isso com o C10, justamente por saber que não existia pontos de recarga próximos de casa. Contudo, o proprietário do carro elétrico passa a se sentir mais tranquilo em relação à esse aspecto conforme usa o carro e entende a rede ao seu redor.
Leapmotor C10: BEV e REEV são iguais
As diferenças entre as duas versões do Leapmotor C10 estão no preço: com o “híbrido” custando R$ 219.990, 15 mil reais a mais que a versão totalmente elétrica. O modelo mais caro adiciona um motor 1.5 a gasolina que funciona exclusivamente para gerar energia para as baterias, ou seja, é um gerador de energia.
A tração, nos dois casos, fica sempre sob responsabilidade do motor elétrico posicionado no eixo traseiro, que oferece 218 cv e 32,6 kgfm de torque. Na versão elétrica, a bateria de 69,9 kWh garante 338 km de alcance segundo o Inmetro.
Em termos de potência, o C10 não deixa à desejar, embora não pude realizar uma viagem com ele carregado. A bateria tem alcance suficiente para o uso no dia a dia, mas quem viaja regularmente, ou não tem como carregar em casa, deveria optar pela versão mais cara.
A suspensão é um dos grandes acertos da Stellantis e ressalta a competência do Centro de Desenvolvimento de Betim (MG) em preparar os carros para o asfalto brasileiro. Contudo, alguns passageiros ainda podem sofrer de cinetose, o enjoo por causa do movimento. Para tentar amenizar esse efeito para os passageiros, o modelo traz a função de frenagem confortável, que funciona bem.
Entre os itens de série, vale destacar as funções de ajustes elétricos, memória, ventilação e aquecimento dos bancos dianteiros, câmera 360º e o teto panorâmico de 2,1 m².
Usabilidade pode melhorar
Não é novidade que carros de origem chinesa são minimalistas ao extremo no design do interior e com o C10 não é diferente. O interior é composto basicamente pelo volante e telas. A composição é bonita, especialmente na cor caramelo, mas todos os comandos estarem presentes na multimídia incomoda um pouco.
Até há um menu de acesso rápido, mas é preciso fazer um movimento específico na multimídia para ele aparecer, e poderia ficar fixo na tela. É algo que o motorista irá se acostumar, mas se quiser mexer no rádio com o carro em movimento ou alterar a velocidade da ventilação, precisará entrar em vários menus, o que pode causar um acidente.
ADAS também precisa de ajustes
Os auxiliares de condução são bem importantes, especialmente tendo em vista que o C10 é grande e mede 4,73 m de comprimento e 2,12 m de largura, contando com os espelhos, portanto, sair de faixa é fácil. Mesmo acionando o piloto automático adaptativo, o modelo não passa tanta confiança especialmente na hora de fazer curvas, mas o que mais incomoda é perceber que o carro fica mais lento ao realizar a curva, em muitos casos sem necessidade.
Entendo que é um artifício de segurança, mas em curvas bem abertas, isso incomoda mais do que facilita a vida do condutor e ainda pode contribuir para a cinetose citada anteriormente.
Leapmotor C10 vale a compra?
Sim, o Leapmotor C10 BEV é um excelente veículo, mas é preciso que o comprador entenda muito bem o que está levando para casa. Se o leitor pensa em comprar uma unidade, especialmente sendo o primeiro contato com carro elétrico, recomendo pagar um pouco mais caro e levar a versão REEV, ou optar por um modelo elétrico de entrada, e caso descubra que um elétrico funciona na sua rotina, optar pelo modelo mais caro.
Os principais pontos de incômodo em relação ao C10 (independente da versão) estão mais relacionados à usabilidade no dia a dia, como a chave por cartão e a necessidade de encostar a chave no retrovisor e no leitor de NFC interior para abrir e ligar o veículo, respectivamente.
No geral, o comprador se sentirá em um carro muito confortável e silencioso, já que ao rodar, apenas o atrito dos pneus com o asfalto incomodam os passageiros, o que pode ser facilmente anulado pelo bom sistema de som com 12 alto-falantes.
Posso comprar sem ter carregador em casa?
Essa é a principal questão. Um carro elétrico do porte do Leapmotor C10 foi pensado para ser mais do que um carro de uso urbano e realizar deslocamentos maiores do que casa-trabalho-casa. É possível comprar o exemplar sem ter um carregador em casa, contudo, sua rotina precisará de ajustes, especialmente se não houver carregadores próximos do trabalho ou locais frequentes.
O alcance de 338 km é bom, mas o carregador de emergência (que não estava presente neste carro em específico) é o famoso quebra galho. Dependendo do carro e da corrente elétrica leva cerca de 24 horas horas para completar as baterias. É muito tempo para recarregar, é bem verdade, mas em uma viagem de fim de semana, ou durante pernoites, ele garante energia para rodar novamente pela manhã.
Novamente, o quem não quer ser refém de carregadores, ou não quer perder tempo aguardando o veículo carregar, terá na versão REEV a versão ideal do C10. O lado positivo é que o comprador não perderá nenhuma funcionalidade, nem alteração na dinâmica de condução.
Ficha Técnica Leapmotor C10 BEV 2026
Motor: elétrico, síncrono com ímã permanente; 218 cv de potência e 32,6 kgfm de torque
Bateria: Fosfato de Ferro-Lítio (LFP); 400V; 69,9 kWh
Direção: elétrica; diâmetro de giro: 11,2 metros
Suspensão: McPherson independente no eixo dianteiro e multibraço no eixo traseiro
Freios: discos ventilados de 319 x 26 mm na dianteira e discos ventilados de 324 x 16 mm na traseira
Pneus: 245/45 R20
Dimensões: 4,73 metros de comprimento; 1,90 m de largura (2,12 contando espelhos); 1,68 m de altura; 2,82 m de distância entre-eixos; porta-malas de 465 litros + 32 litros (compartimento frontal);
Peso em ordem de marcha: 2.007 kg
Aceleração 0-100 km/h: 8,3 segundos
Velocidade Máxima: 170 km/h (limitada eletronicamente)
Alcance PBEV: 338 km
Preço: R$ 204.990
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