O velho ditado diz: beleza não põe mesa. E essa lógica pode ser aplicada às vendas do Peugeot 208. Apesar do visual marcante e motores confiáveis, o hatchback nunca deslanchou nas vendas. O que faz o compacto da Peugeot não ser um sucesso? Vamos explorar nas linhas a seguir.
A segunda geração do hatchback foi lançada em 2020, e desde então, seu melhor ano de vendas foi 2022, quando 29.918 unidades foram vendidas em um ano. Para efeito de comparação, o modelo encerrou 2025 com 9.809 emplacamentos totais.
Visual impactante
Gosto não se discute, mas o impacto visual do 208 é singular na categoria de hatchbacks. Desde o lançamento do modelo, em termos estéticos, o Peugeot fez e segue fazendo o visual dos concorrentes parecer obsoleto.
A reestilização da segunda geração trouxe como destaque três barras em LED imitando uma garra de um leão na dianteira do hatchback. Os faróis ganharam projetores nas versões Style e GT.
Na traseira, o destaque fica por conta da nova estilização do nome Peugeot e novo desenho interno das lanternas de LED, que passaram a adotar uma linguagem horizontal. Lateralmente, a versão GT é a única que apresenta novidades, graças às rodas de 17 polegadas de pneu perfil 45, que abordaremos mais tarde.
Interior peculiar
A cabine é o ponto mais complexo do Peugeot 208. O desenho é bem pensado e criativo, o plástico estilizado que imita fibra de carbono é bonito. O revestimento dos bancos em couro sintético com costuras em verde-limão, bem como o acabamento preto brilhante dão um refino extra ao habitáculo.
Entretanto, o principal problema do 208 é o espaço e a posição de dirigir pra lá de peculiar. O entre-eixos de 2,53 m é próximo aos 2,56 m do Volkswagen Polo, porém, a impressão é de que o aproveitamento de espaço é pior no modelo francês e os ocupantes precisarão negociar espaço. Nas versões GT, Allure e Style, o espaço para a cabeça é prejudicado por conta do teto panorâmico de vidro, já que a cortina fica armazenada justamente à frente da cabeça dos viajantes.
Para o motorista, a posição de dirigir é particular, e talvez a característica mais marcante dos carros da Peugeot. O i-Cockpit consiste em painel de instrumentos pequeno (digital e 3D no caso da versão GT) e volante pequeno. Nos primeiros momentos é difícil encontrar a melhor posição para dirigir, afinal, o volante fica numa posição baixa e pode resvalar na perna do condutor.
Além disso, dependendo do ajuste, a parte superior do volante pode impedir a visualização de informações do painel, aumentando ainda mais a complexidade de encontrar o ajuste correto.
O volante pequeno tem uma pegada muito boa, e apesar de ser estranho no primeiro contato, ajuda a tornar a experiência de condução do 208 bem divertida. Fica a crítica somente aos acabamentos cromados no aro do volante, que podem esquentar bastante em dias quentes, e também para a ausência de borboletas para troca de marchas, item presente na Europa e no 2008 feito na Argentina, e que tornaria a condução mais dinâmica e divertida.
A central multimídia de 10,3” tem uma resolução aceitável, comandos fáceis de usar e conexão bem veloz com Android Auto. A crítica fica somente para o acionamento da câmera de ré, que demora para iniciar a projeção de imagens. Por falar na câmera de ré, a principal tem boa resolução, mas a função de câmera “superior”, fica devendo bastante na qualidade da imagem, com direito até a distorções em algumas situações.
Um ponto positivo são as teclas estilo piano, que servem como comando rápido para ar-condicionado, travas e desembaçadores. Por falar no ar-condicionado, a posição das saídas poderia ser melhor otimizada, já que não conseguem direcionar o vento para o peito ou rosto dos ocupantes dianteiros.
Vale destacar o funcionamento simples do controle de velocidade de cruzeiro e também do limitador de velocidade, comandados por uma alavanca satélite do lado esquerdo da coluna de direção.
Seria excelente se o Peugeot 208 GT contasse com sistemas de auxílio mais avançados como controle de cruzeiro adaptativo, entretanto, a instalação desses sensores tornaria o carro ainda mais caro do que é. Ao menos, o pacote ADAS traz assistente de permanencia em faixa e leitura de placas de velocidade.
Espaço é o principal ponto negativo
Apesar das idiossincrasias do i-Cockpit, o modelo é bem fácil de conviver, uma vez que o motorista se acostuma com as peculiaridades. Não à toa, baseado nas minhas experiências, achei o 208 mais gostoso de guiar do que o “irmão maior” 2008.
É justamente no espaço que o 208 mais fica devendo. Medindo 4,05 m de comprimento, está bem próximo aos demais concorrentes do segmento, porém, o porta-malas com apenas 265 litros de capacidade (VDA) atrapalha muito a escolha pelo hatchback franco-argentino.
Só que não é apenas no bagageiro que o 208 é pequeno, a sensação no geral é de um carro bem apertado, especialmente para o os ocupantes que viajam no banco traseiro, que já perdem parte do espaço para a cabeça por conta da cortina do teto.
Além disso, o espaço para as pernas deverá ser negociado com o motorista, caso o condutor seja muito alto, ou goste de dirigir bem para trás, o passageiro viajará bem apertado.
Porém, apesar de apertado, (que não me causou incômodo nas quase três semanas de teste) o que mais me incomodou no hatchback produzido em El Palomar (Argentina) foi a dificuldade para entrar e sair da cabine, independente de qual porta utilizar. É necessário certo contorcionismo e agilidade para entrar ou sair do carro.
Motor híbrido e performance
Debaixo do capô está o motor 1.0 Firefly de 3 cilindros na versão Style e transmissão manual de cinco marchas (a única com essa configuração) ou o conjunto 1.0 Turbo de 130/125 cv no etanol/gasolina e 20,4 kgfm de torque, sempre com transmissão automática do tipo CVT de 7 velocidades. Somente a versão GT conta com a variante híbrida-leve do propulsor turbo, que basicamente substitui o motor de partida e alternador por um motor elétrico.
Na prática, o fato de ser híbrido-leve não altera a performance e também o consumo de combustível do pequeno Peugeot. Segundo a ficha técnica, o tempo de zero a 100 é de 9 segundos na gasolina, e durante as retomadas e ultrapassagens, o hatchback não negou fogo.
O que pega no caso do 208 é justamente o consumo. Embora a ficha técnica mostre 13 km/l de consumo na cidade com gasolina, na prática a média ficou na casa dos 9 km/l com o mesmo combustível.
Na estrada, com ar-condicionado e carro cheio, a média ficou na casa dos 14 km/l, enquanto em outros momentos, como em um dia chuvoso, e velocidade média bem mais baixa, foi possível conseguir até 17 km/l.
Peugeot 208: Vale a pena?
O Peugeot 208 é um carro para quem prioriza visual e prazer em dirigir. Será muito difícil não ser visto ao passar com um Peugeot 208 nas ruas, que mesmo com bons anos de mercado, continua com um visual bem charmoso e impactante.
O motor é outro ponto positivo do 208, afinal, o T200 da Stellantis é consagrado e já equipa diversos modelos à venda no país, e claro, não falta fôlego. O conforto tanto acústico quanto das suspensões também é ótimo.
A partir daí, o 208 se torna um candidato somente para quem não precisa de espaço, ou prioriza facilidade ao manobrar. No cenário ideal, é um carro excelente para um casal sem filhos, ou para ser o segundo ou terceiro de uma família, por exemplo.
A principal questão do 208 é espaço e consumo na cidade. Esses pontos pesam negativamente para o hatchback, que custa R$ 136.490 (sem descontos) na versão topo de linha.
Confesso que a única razão que me faria optar pela versão GT seria os faróis full-LED, que são excelentes na estrada. De resto, a versão Allure (R$ 118.990) já oferece um pacote de equipamentos bastante recheado, inclusive com teto panorâmico, e seria a minha escolha.
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