Durante anos, a indústria automobilística transformou as telas sensíveis ao toque no símbolo da modernidade. Quanto maior a tela e menor o número de botões, mais avançado o carro parecia. A Tesla liderou essa tendência, e grande parte do setor a seguiu. No entanto, o cenário mudou.
Motoristas começaram a reclamar, especialistas alertaram sobre o aumento da carga cognitiva e órgãos como o Euro NCAP decidiram intervir. O resultado é um recuo inesperado: fabricantes que haviam apostado na eliminação de controles físicos estão agora os resgatando.
A digitalização não foi um capricho. Com o aumento de funções nos veículos, a quantidade de comandos cresceu. José Solaz, diretor de inovação do Instituto de Biomecânica de Valência (IBV), lembra que um BMW Série 7 dos anos 90 tinha dezenas de controles, enquanto sistemas como o iDrive permitiram gerenciar centenas de funções em uma interface digital. A tela concentrava uma complexidade crescente em um só lugar.
A solução parecia perfeita, com interiores minimalistas inspirados em celulares. Contudo, o uso diário revelou suas limitações. Telas táteis exigem confirmação visual, obrigando o motorista a desviar o olhar da estrada. Botões físicos, por outro lado, oferecem referências táteis e posições fixas que podem ser localizadas sem olhar.
Volkswagen admite o erro
Andreas Mindt, chefe de design da Volkswagen, reconheceu publicamente que a remoção massiva de botões foi um erro. A empresa anunciou que trará de volta controles físicos para funções essenciais como climatização, volume e luzes de emergência, começando pelo modelo ID.2.
A decisão impacta todo o grupo, que compartilha tecnologia com Audi, Skoda, Seat, Cupra e Porsche. A Audi também busca interiores mais intuitivos, equilibrando tecnologia e ergonomia. Até mesmo a Tesla, pioneira da tela central, começou a reintroduzir alguns controles físicos.
A tendência é global. Marcas chinesas, conhecidas pela digitalização extrema, também recuperam elementos físicos. A Xiaomi oferece acessórios com teclas físicas configuráveis para seu sedã SU7, enquanto a BYD mantém comandos convencionais para funções de uso frequente.
A intervenção do Euro NCAP
A discussão deixou de ser apenas sobre preferência. O Euro NCAP, órgão que avalia a segurança dos veículos na Europa, passará a exigir que carros obtenham cinco estrelas apenas se facilitarem o acesso a funções essenciais com controles físicos ou sistemas de eficácia comprovada.
Entre as funções críticas estão piscas, luzes de emergência, buzina e limpadores de para-brisa. Para Solaz, a tecnologia deve melhorar a segurança, não complicá-la.
A questão central é cognitiva. Buscar uma função em uma tela tátil aciona processos mentais que competem com a atenção necessária para dirigir. A sequência envolve desviar o olhar, localizar a função, coordenar o movimento e verificar a ação, antes de focar novamente no trânsito. Solaz resume: "É como fazer malabarismos".
O futuro, porém, não aponta para uma volta ao passado, mas para sistemas com inteligência artificial e linguagem natural que antecipem as necessidades do motorista. Enquanto isso não acontece, a indústria aprendeu que inovação é projetar veículos mais seguros e com menos distrações. Nessa busca por equilíbrio, o velho botão físico voltou a reivindicar seu lugar.
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