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Salvem as Peruas!

40 anos da Fiat Elba: a perua que carregou famílias e a história do Brasil

Quatro décadas depois, a Elba segue presente entre o cotidiano, a memória afetiva e episódios marcantes da história do país

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Fiat Elba CSL 1600 4p
Fiat Elba CSL 1600 4p Foto: Divulgação/Stellantis

A Fiat Elba é um carro da época em que os carros tinham família completa. Derivados, geralmente, de um hatch, pouco tempo depois os novos integrantes eram apresentados ao público.

Seguindo essa tradição, praticamente extinta a partir dos anos 2010, a Fiat lançou a perua do Uno em 1986, dois anos após o lançamento da botinha ortopédica. Da sua antecessora, a simpática Panorama (que, por sua vez, derivou do pioneiro 147), herdou a versatilidade e o amplo espaço interno, principalmente para as bagagens.

A exemplo das suas concorrentes Volkswagen Parati e Chevrolet Marajó, que ostentavam nomes em alusão a cidades brasileiras icônicas, a Fiat fez o mesmo, mas voltada a suas origens, em uma homenagem à terceira maior ilha da Itália, localizada na Toscana, Ilha de Elba.

A perua do Uno foi concebida para oferecer mais espaço, conforto e versatilidade sem abrir mão da economia e da robustez, características já associadas à marca no país graças ao 147 e seus derivados. Na prática, isso se refletia no bom aproveitamento interno, com porta-malas de até 610 litros, que chegava a 1.749 litros com o banco traseiro rebatido.

No lançamento, chegou nas versões S e CS, com motores 1.3 e 1.5, sempre com três portas. Ao longo dos anos, acompanhou as mudanças do consumidor com atualizações relevantes: em 1989, chegou a versão topo de linha CSL, mais sofisticada, com acabamento refinado, bancos em veludo e painel atualizado; em 1990, passou a oferecer cinco portas, motor 1.6 e itens de conforto como vidros elétricos e ar-condicionado; e, na sequência, foi reestilizada em 1991, quando abandonou a famosa ‘frente alta’ para se alinhar ao restante da linha Uno. Em 1992, passou a contar com injeção eletrônica no motor 1.5 nacional. Sua produção foi encerrada em 1997, quando foi substituída pela Fiat Palio Weekend.

O carro que derrubou o presidente

O então Presidente Fernando Collor em sua Elba Weekend, pivô das denúncias que culminou no seu impeachment
O então Presidente Fernando Collor em sua Elba Weekend, pivô das denúncias que culminou no seu impeachment Foto: Reprodução/Internet

Em 1990, Fernando Collor de Mello assumiu a presidência como o primeiro eleito pelo voto direto desde Jânio Quadros, em 1960. Uma de suas medidas mais marcantes foi a reabertura das importações, interrompidas desde 1976, durante a ditadura militar, sob a justificativa de que os veículos nacionais não passavam de "carroças".

Ironia do destino ou não, foi justamente um modelo nacional que selou seu destino político. Em 1991, uma Elba Weekend se tornou a peça central de um dos maiores escândalos políticos do país. Comprada em nome do presidente, a Elba destoava totalmente dos carros de luxo que ocupavam a garagem da Casa da Dinda, sua residência oficial.

Elba Weekend de Collor na entrada da Casa da Dinda
Elba Weekend de Collor na entrada da Casa da Dinda Foto: Reprodução/Internet

A investigação sobre a origem do dinheiro utilizado para adquirir o veículo revelou um esquema de corrupção que serviu de prova incontestável para a denúncia que culminou no impeachment de Collor, em 1992. Desde então, a Elba cravou seu nome na cultura popular brasileira como o improvável ícone automotivo que ajudou a derrubar um presidente.

Anos depois, o próprio Fernando Collor revelou que entrou com o pedido de baixa do carro junto ao Detran.

As histórias dos donos

Ignacio e sua Elba cor-de-rosa

A Véia Ramalho de Ignacio nas pistas
A Véia Ramalho de Ignacio nas pistas Foto: Reprodução/Arquivo pessoal/Ignacio

Convenhamos: a Elba nunca foi um sonho de consumo como outros modelos que já nasceram desejados ou conquistaram esse status ao se tornarem clássicos, como o próprio Uno em suas versões esportivas ou concorrentes como a Parati GLS, por exemplo.

Mas foi justamente essa condição de “esquecida” que levou Ignacio a comprar sua Elba CS 1500 1988. Uma Elba que, literalmente, mudou a sua vida.

Mais do que um projeto de pista, a Fiat Elba 1988, carinhosamente apelidada de Véia Ramalho (em uma clara referência à cantora Elba Ramalho), nasceu em um dos momentos mais delicados da vida do seu dono. Em 2016, enquanto sua primeira esposa, Bruna, enfrentava um câncer de mama em estágio avançado, o carro surgiu como uma válvula de escape. “Foi incentivo dela e dos amigos. Eu precisava de algo que ocupasse as mãos e ajudasse a manter a cabeça no lugar”, relembra.

A Véia Ramalho de Ignacio nas pistas
A Véia Ramalho de Ignacio nas pistas Foto: Reprodução/Arquivo pessoal/Ignacio

Até a compra do carro teve um significado especial. A Elba veio de um amigo, Patrick, que vendia o veículo para custear o tratamento da mãe. No fim, o carro acabou ajudando a família do Patrick e era justamente o tipo de carro que o Ignacio precisava. Mesmo com um histórico complicado desde o primeiro dono, incluindo incêndio e quebra de motor, era uma boa base para um projeto que evoluiu rápido: carburador Weber, gaiola de 10 pontos, suspensão preparada e cerca de 85 cv, suficientes para surpreender na pista até. “Era mais diversão do que qualquer planilha de custo justificaria”, brinca.

Mas o que realmente define a Véia Ramalho não é o desempenho. Em junho de 2017, pouco antes de falecer, a Bruna fez um último pedido: queria que o carro fosse pintado de rosa, e fez questão de contar isso para todo mundo, garantindo que não teria volta. Não valia envelopar; tinha que pintar mesmo, do jeito mais trabalhoso possível. “Era, claramente, um plano para não me deixar escapar” brinca Ignacio. Escolhemos um rosa bem vivo, estilo Penélope Charmosa.

Desde então, o carro virou exatamente isso: uma memória em forma de máquina. “Hoje ele está parado mais por logística do que por vontade. Estou planejando montar uma estrutura, com picape e plataforma, para voltar a brincar com ele.”

Ignacio dá risada ao lembrar que pagou quatro mil reais na Elba, mas, para poder voltar a curtir o carro nas pistas, talvez precise comprar uma casa inteira. Outro ponto que reforça a importância dessa Elba cor-de-rosa, e que define que ela é muito mais do que um carro, é o trato feito com o amigo: “se um dia eu decidir me desfazer dela, já está combinado: a Véia Ramalho volta para o Patrick. Porque no fim das contas, ela nunca foi só minha”, conclui.

Mateus Cesar e a Elba 1.6 i.e que está na família desde 0 km

A Elba 1.6 i.e que está ná familia de Mateus desde 0 km
A Elba 1.6 i.e que está ná familia de Mateus desde 0 km Foto: Mateus Cesar/Arquivo Pessoal

Cesar é um dos meus melhores amigos. Nos conhecemos há 21 anos, quando fui fazer a antiga 2ª série na escola dele. Era 2005, e a “Elbinha”, como ele chama, já fazia parte da família desde 1995, quando foi comprada zero quilômetro por dona Cesaria, sua avó.

Ele diz que, por conta da família grande, sua avó buscava um carro que fosse espaçoso para carregar todo mundo, que tivesse um desempenho bom e que pudesse enfrentar estradas de terra rumo ao sítio da família sem maiores dificuldades. Diante disso, ao ir num concessionário Fiat e conhecer de perto a perua derivada do Uno, dona Cesaria escolheu uma Elba 1.6 i.e completa, com todos os opcionais disponíveis para a linha, exceto ar-condicionado, na cor Cinza Steel.

Pouco tempo depois, por questões de saúde, ela deixou de dirigir, e o carro passou para a mãe de Mateus, que assumiu as tarefas da casa e do sítio. “Minha mãe gostou tanto dela, achava um carro confortável, espaçoso, econômico e ágil, que, anos depois, acabou comprando uma Palio Weekend, a substituta natural da Elba, e aí, a Elbinha virou carro de garagem, com pouco uso, e ficou parada por um tempo”, conta Mateus.

A partir disso, o tio de Mateus, que trabalhava com construção civil, passou a usar o carro no dia a dia, aproveitando o espaço para transportar ferramentas. Mas o uso intenso no trânsito de São Paulo acabou cobrando seu preço, e itens como para-choques e forros internos sofreram danos.

“Pra você ver a influência da Elba na família, todo mundo queria ter uma perua em casa e, depois da minha mãe, foi a vez do meu tio comprar uma VW Parati. E, de novo, a Elbinha virou carro de garagem, sendo assumida pelo meu pai, que usava bem esporadicamente”, relembra. Durante os anos que ficou sob a tutela de seu Luiz Antônio, os itens que estavam desgastados, por tempo ou pelo uso, foram sendo restaurados ou substituídos por ele. A Elbinha tinha virado uma verdadeira garage queen.

Mais de vinte anos depois da compra, após longos períodos de pouco uso, o carro voltou a servir a família, dessa vez nas mãos de Guto, irmão mais velho de Mateus, que havia se tornado pai. Alguns anos e muitos quilômetros depois, a Elbinha finalmente chegou às mãos de quem sempre conviveu com ela desde criança: o próprio Mateus.

Ele relembra esse momento com bom humor e certo alívio: “meu pai, que é taxista, trocou de carro e passou o Logan dele pro meu irmão. Nesse meio tempo, eu tinha um Peugeot 206, que foi meu primeiro carro, e consegui passar essa dor de cabeça pra frente e fiquei com a Elba, em 2023”.

A primeira viagem foi para a cidade de Socorro, interior de São Paulo
A primeira viagem foi para a cidade de Socorro, interior de São Paulo Foto: Mateus Cesar/Arquivo Pessoal

Apesar dos 28 anos de idade e de ter passado por várias mãos, o hodômetro marcava impressionantes 68 mil quilômetros quando Mateus assumiu o carro. De lá para cá, já foram quase 30 mil quilômetros rodados entre passeios, viagens e o uso diário.

“Por onde eu passo com esse carro, chamo atenção. Mesmo tendo passado por várias pessoas da família, é um carro muito íntegro. Já aconteceu de motorista de ônibus parar do lado, abrir a porta pra elogiar e perguntar se eu vendia ela”, conta.

O único perrengue com a "Elbinha" foi justamente no dia do casamento de Mateus
O único perrengue com a "Elbinha" foi justamente no dia do casamento de Mateus Foto: Mateus Cesar/Arquivo Pessoal

Foi difícil tirar alguma história sobre perrengue que já tenha passado com a Elbinha, mas a única aconteceu em grande estilo: no dia do próprio casamento. “Eu estava usando o carro justamente para o que ele foi feito, carregando tudo: comida, decoração, itens da festa. A cerimônia era às 19h, e eu estava rodando a cidade resolvendo tudo. Quando estava voltando pra casa pra me arrumar, por volta das 18h, um cara emparelhou e avisou que o pneu traseiro estava furado. Eu não acreditei. Faltavam cinquenta minutos pro casamento, eu ainda precisava chegar, tomar banho, me arrumar… e o pneu fura.”

“Essa foi a única vez que a Elbinha me deixou na mão, e nem foi culpa dela. Como não tinha jeito, troquei o pneu mais rápido que qualquer pit stop de Fórmula 1 e consegui chegar a tempo pro meu próprio casamento” conta rindo, ao lembrar da situação.

O vínculo, claro, vai muito além do uso. “Tenho um carinho muito grande por esse carro, querendo ou não, eu vejo ele desde quando nasci, já brinquei muito ali dentro quando era criança, fingindo que estava dirigindo”. Sobre o futuro, Mateus diz que não tem intenção nenhuma de vendê-la. Do mesmo jeito que o carro passou de mão em mão dentro da família, a ideia é que continue assim nas próximas gerações.

Hoje, com 31 anos e 97 mil quilômetros rodados, a Elbinha ganhou uma companheira de garagem. Mateus realizou o sonho da primeira moto, uma Shineray Denver 250 de estilo custom, que passou a ser usada no dia a dia. Com isso, a Elba assumiu um papel mais especial: carro de passeios, viagens e encontros de antigos, mas sempre pronta para qualquer uso quando necessário.

Max e a Elba 1.5 que transformou sua vida

Carregada de bagagens e sonhos, a missão de percorrer mais de 1700km entre SP/BA foi cumprida com sucesso pela Elba de Max
Carregada de bagagens e sonhos, a missão de percorrer mais de 1700km entre SP/BA foi cumprida com sucesso pela Elba de Max Foto: Max/Arquivo Pessoal

Assim como nunca havia sido um sonho de consumo para Ignacio e acabou marcando um recomeço, e como foi escolhida por dona Cesaria por seus atributos práticos, Max convenceu sua mãe de que ter uma Fiat Elba 1995 em 2025 para ser o carro de suporte da empresa da família (!) era a melhor decisão a se tomar.

Para ele, a chegada da sua Elba 1.5 i.e. 1995 não foi apenas a compra de um carro, mas o marco zero de um processo de reconstrução pessoal. Após viver três anos e meio nos Estados Unidos, Max retornou ao Brasil em maio de 2025, deixando tudo para trás. “Eu voltei com a cabeça destruída, sem dinheiro e sem perspectiva. Precisava de um lugar para botar minha energia”, confessa. 

Sem emprego e decidido a retribuir todo o apoio que sua mãe lhe deu desde o seu retorno ao país, passou a ajudá-la na empresa da família, uma fábrica de chocolate. Lá, eles precisavam resolver um problema logístico no transporte dos insumos entre a fábrica e o armazém em São Paulo. O carro da mãe, um Nissan Kicks, não dava conta do recado, além de não estar sempre à disposição, e terceirizar a operação seria caro.

Foi nesse contexto que surgiu a ideia da Elba.

A "viatura" oficial da fábrica de chocolates da família
A "viatura" oficial da fábrica de chocolates da família Foto: Max/Arquivo Pessoal

Despretensiosamente (ou nem tanto assim), Max começou a sugerir modelos robustos, simples e com boa capacidade de carga, como a Fiorino e a própria Elba, ambos derivados do Uno. Como argumento, disse à mãe que usaria e cuidaria do carro e que eram baratos de manter e de comprar, e que um bom exemplar custaria por volta de R$ 15 mil.

Minutos depois dessa conversa, ao sair da fábrica, se deparou com uma Elba branca à venda, parada em frente a uma oficina, a dois quarteirões dali. Sem hesitar, entrou em contato com o então proprietário e o valor era exatamente R$ 15 mil. “Fiquei chocado com a coincidência. Aquilo me bateu como um sinal de que tinha que ser aquele carro”, relembra.

O dia que conheceu a sua futura Elba, minutos depois de sugerir à mãe a compra de uma
O dia que conheceu a sua futura Elba, minutos depois de sugerir à mãe a compra de uma Foto: Max/Arquivo Pessoal

Com a ajuda da mãe, que enxergou ali mais do que um veículo, mas uma forma de ajudar o filho, a Elba entrou na vida dele. “Ela foi um presente para eu melhorar. Meus pais nunca foram disso, mas ela entendeu que eu precisava de um propósito”, conta.

Ainda sob a euforia da compra, Max conversou com o ex-dono para entender e conhecer mais sobre a sua Elba 1.5 i.e, que tinha uma configuração bem exclusiva. Ela havia sido faturada originalmente para o Ministério da Agricultura, com placa iniciada em BRZ, e foi comprada ainda em 1996 por um mecânico que a manteve até 2025. Era uma configuração curiosa: versão simples, mas com interior mais refinado, herdado da versão ELX do Uno. “Sou o terceiro dono, e ela marca 277 mil quilômetros originais. E não parece ter isso. Não tem barulho interno, nada range. O motor e o câmbio nunca tinham sido abertos”, diz.

Mas apenas duas semanas após a compra, em um dia de calor acima dos 34 °C em São Paulo, o cebolão do radiador pifou, a ventoinha não ligou, o carro ferveu e a junta do cabeçote queimou. “Foi um desastre. Eu cheguei em casa e chorei. Bateu aquele medo de não conseguir manter o carro e de decepcionar minha mãe.”

Mas foi nesse momento que a relação entre homem e máquina se fortaleceu ainda mais. Max encostou o carro e decidiu colocar a mão na massa para resolver o que pudesse em casa. Acostumado ao universo dos Fuscas, onde o sistema de arrefecimento simplesmente não existe, começou a estudar, entrou em grupos de entusiastas do carro, e, após um mês parado, desmontou parte da frente e peças do sistema por conta própria. No processo, passou a registrar tudo para as redes sociais.

Max com a mão na massa após a queima da junta do cabeçote do motor Fiasa
Max com a mão na massa após a queima da junta do cabeçote do motor Fiasa Foto: Max/Arquivo Pessoal

A criação de conteúdo começou sem grandes pretensões, mas o primeiro vídeo teve boa repercussão. “Eu pensei: agora tenho um compromisso com a minha melhora mesmo.” A partir dali, carro e processo pessoal passaram a caminhar juntos. Enquanto mexia na Elba, gravava, postava e interagia com o público, também se reorganizava por dentro.

“A Elba virou um grande Megazord na minha vida”, resume, misturando o carro, a rotina e o próprio momento. No meio disso, voltou a frequentar encontros, se reconectou com o universo automotivo e criou um senso de responsabilidade que antes não existia, com quem acompanhava e, principalmente, com o próprio carro. Agora, a pequena perua tinha uma legião de fãs que queria vê-la sempre bonita, rodando e bem cuidada, sem risco de virar uma sucata, como a grande parte dos carros antigos viram.

Outra guinada na vida uniu ainda mais essa dupla, como se isso fosse possível. Enquanto Max ainda tentava se reestruturar em São Paulo, sua mãe decidiu se mudar para a fazenda da família, no sul da Bahia, onde mantém a plantação de cacau que abastece a produção de chocolate. Sozinha, com uma operação complexa nas mãos e um projeto social para manter de pé, ela precisava de ajuda. Do outro lado, ele também já não encontrava espaço na cidade para se reorganizar. “Eu pensei: vou ajudar minha mãe e, no meio disso, tentar me ajudar também.”

Max passou cerca de um mês se organizando e decidiu levar tudo o que havia ficado em São Paulo dentro da própria Elba: malas, ferramentas, seus materiais de arte. Antes de encarar a estrada, a perua passou por uma revisão completa nas mãos de um mecânico de confiança. Com sistema de arrefecimento refeito, suspensão revisada, rolamentos novos e vazamentos resolvidos, a perua estava pronta e a sensação era de estar diante de outro carro, finalmente pronto para encarar a viagem.

A viagem pra Bahia rendeu belos registros fotográficos com a Elba
A viagem pra Bahia rendeu belos registros fotográficos com a Elba Foto: Max/Arquivo Pessoal

O trajeto, de cerca de 1.700 quilômetros, foi planejado com cautela, para ser percorrido em três dias. Assim, rodaria somente durante o dia, em estradas mais movimentadas, caso precisasse de algum apoio. No caminho, um momento simbólico: a passagem por Betim, onde a Elba nasceu 31 anos antes, com direito a parada em frente à fábrica.

A viagem foi melhor do que o esperado. A perua cruzou Minas Gerais sem sustos e seguiu firme por trechos longos e isolados com tranquilidade, passando por cidades como Governador Valadares e encarando a beleza quase inesperada da BR-418. “Foi maravilhosamente bem”, resume.

Durante a viagem de mudança para a Bahia, uma parada para registrar a Elba com a Pedra da Boca logo à frente
Durante a viagem de mudança para a Bahia, uma parada para registrar a Elba com a Pedra da Boca logo à frente Foto: Max/Arquivo Pessoal

O único susto veio já perto do destino. Em uma estrada de terra, uma distração fez o carro sair do caminho e entrar no mato. O impacto foi leve, mas suficiente para danificar o para-choque, o abafador e o protetor de cárter. Nada de grave, mas batizou a perua, para a total ira do seu dono, mesmo com o divertido ronco esportivo por conta do abafador furado.

A maior missão da dupla, até então, estava cumprida. Depois de mais de 1.700 quilômetros, a Elba chegou à Bahia carregando muito mais do que bagagem. Chegou como ponte entre duas fases da vida. Agora, os planos incluem, a instalação de um sistema de som completo, cuidar da estrutura com reforços na longarina e tratar pontos de ferrugem, além de instalar proteções mais robustas, como um um “peito de ferro” adaptado para encarar estradas de terra, que serão rotina. Também está nos planos a troca das rodas de ferro originais por um jogo feito sob medida com aro maior e tala mais larga.

A ligação com a Elba começa muito antes da compra. Foi com um Uno vermelho da avó que Max aprendeu a dirigir ainda criança, na mesma fazenda onde vive hoje. Por isso, com a Elba, sente que não é só uma perua qualquer, é quase uma continuação dessa história. “Espiritualmente, é o Uno da minha avó”, resume. E faz sentido, porque a Elba nada mais é do que a perua do Uno e carrega a mesma simplicidade e praticidade que consagrou o hatch.

Mesmo em menos de um ano de convivência, a Elba virou cenário e companhia de tudo, de viagens a encontros com amigos, de momentos difíceis a fases mais leves. Carregou gente, bagagem e histórias. “Já trouxe tantas coisas legais”, diz. Simples, sem luxo, mas cheia de personalidade, ela rapidamente ocupou um espaço muito maior do que o esperado. Virou uma espécie de cápsula de momentos e peça central de uma mudança profunda na vida dele, uma relação que, para Max, está só começando. E tem tudo para ser definitiva.

Quatro décadas depois

Quarenta anos após o lançamento, a Fiat Elba nunca ocupou o posto de protagonista absoluto entre os carros nacionais. Ainda assim, permanece presente de uma forma difícil de medir.

Em comum, as três trajetórias revelam um mesmo padrão: a Elba como instrumento de transformação. Para Ignácio, foi refúgio em meio à dor e uma forma de manter viva uma memória. Para Mateus, é herança afetiva, um elo entre gerações que atravessa o tempo dentro da própria família. Para Max, tornou-se ponto de partida para reconstruir a própria vida.

E, no imaginário coletivo, seu nome também ficou marcado por um dos episódios mais emblemáticos da história recente do país, ao se tornar símbolo do escândalo que levou ao impeachment de Fernando Collor de Mello.

No fim, mais do que uma perua derivada do Fiat Uno, a Elba prova que carros podem ser muito mais que apenas um meio de transporte.

Fiat Elba Weekend 1.5 i.e
Fiat Elba Weekend 1.5 i.e Foto: Divulgação/Stellantis