Transatlântico parte para viagem histórica que o Titanic não completou há um século

Clique e veja a rota que o transatlântico deveria ter feito   Quinze de abril de 1912 era mais uma jornada usual de trabalho para o operador de rádio Harold Thomas Cotton. A bordo do transatlântico Carpathia, ele planejava dormir cedo. Nos dois dias anteriores, Cotton havia ficado acordado até as 2h e as 3h,

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Clique e veja a rota que o transatlântico deveria ter feito

 

Quinze de abril de 1912 era mais uma jornada usual de trabalho para o operador de rádio Harold Thomas Cotton. A bordo do transatlântico Carpathia, ele planejava dormir cedo. Nos dois dias anteriores, Cotton havia ficado acordado até as 2h e as 3h, respectivamente. Antes de ir para a cama, porém, resolveu checar as últimas notícias – queria informações sobre a greve dos carvoeiros em Londres. Algo bem mais impactante que o movimento trabalhista, contudo, chegou aos seus ouvidos. “Venham logo. Nos chocamos com um iceberg. Essa é uma chamada ‘C.Q.D.’, meus velhos.”

Era 0h25 quando Cotton recebeu a mensagem incluindo a sigla que, tempos depois, seria substituída por S.O.S. O pedido de socorro fora enviado por Jack Phillips, operador do Titanic. Por isso, parecia inacreditável. O maior navio de passageiros até então construído, considerado “inafundável”, estava prestes a ser engolido pelo Atlântico. A partir daí, Cotton seria testemunha de relatos desesperados, até que o mar silenciou o Titanic. “Quando não ouvi mais sinais, soube que tudo tinha acabado”, relatou à edição de 19 de abril daquele ano do jornal The New York Times.

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Cem anos depois, a tragédia que matou mais de 1,5 mil pessoas continua fascinando o público. No último domingo (08), o transatlântico Balmoral MS partiu com 1.309 passageiros de Southampton, na Inglaterra, para fazer a viagem histórica que o Titanic não conseguiu completar. Serão 12 dias de roteiro, com direito a palestras sobre o naufrágio e visitação à área do acidente. Cada passageiro pagou em libras o equivalente a entre R$ 8 mil e R$ 17 mil pelo roteiro.

 

Em Belfast, província britânica na Irlanda do Norte, um museu do navio com seis andares foi inaugurado em 31 de março, em uma espécie de comemoração que beira o grotesco, com sorridentes modelos vestidas com roupas da época, representando as damas que passariam momentos de horror dentro do transatlântico de luxo. Em cidades como Las Vegas e Orlando, nos Estados Unidos, e em Singapura, exposições com objetos resgatados pela RMS, empresa que detém os direitos sobre os restos do Titanic, fascinam os visitantes, que podem apreciar chapéus, ânforas e talheres, entre outros artefatos que foram parar a 4 mil metros de profundidade. Uma riqueza arqueológica que, agora, está sob a garantia da Convenção da Unesco sobre a Proteção do Patrimônio Cultural Subaquático.

Não é difícil explicar por que um desastre ocorrido há um século ainda impressiona um mundo que, no mesmo período, passou por duas guerras mundiais e testemunhou episódios sangrentos como o ataque dos Estados Unidos ao Vietnã e o desabamento das Torres Gêmeas do World Trade Center. O Titanic não foi apenas um navio que naufragou. O iceberg com o qual se chocou levou para o fundo do mar o símbolo do luxo, da modernidade, da onipotência que o homem acreditava ter naquele momento.

Azar e negligência
Pesquisador do Departamento de Ciências da Terra da Universidade de Oxford, o cientista e escritor Richard Corfield diz que além dos mitos que envolvem a história há a pergunta que, 100 anos depois, continua a incomodar: o que afundou o Titanic? “Um iceberg”, brinca. A verdadeira questão, segundo ele, é: por que o navio colidiu com o bloco de gelo e, mais, o que teria levado o mais moderno transatlântico da época para o fundo do oceano? “Para garantir a segurança, o Titanic incorporou todas as inovações tecnológicas disponíveis. O casco era mantido por 3 milhões de rebites feitos de aço maciço, material mais forte do que ferro forjado. O mais poderoso equipamento sem fio, o sistema de transmissão de rádio Marconi, também estava lá. Nada disso, porém, evitou o naufrágio.”

Mary Beth Crocker Dearing e Tom Dearing posam para foto com trajes da época na frente do MS Balmoral. O navio vai levar, entre os tripulantes, descendentes dos mortos da tragédia

Para Corfield, o transatlântico foi azarado e uma conjunção de fatores estaria por trás da tragédia. “Ele afundou completamente menos de três horas depois de ter atingido o iceberg. Essa é a questão-chave da história. Como um navio de 46 mil toneladas afundou tão rapidamente?”, questiona. A resposta, afirma, está na construção da embarcação e nos eventos que ocorreram na viagem fatídica.

Entre os detalhes técnicos, o número de botes salva-vidas era menor do que o exigido por lei, além de eventos menos divulgados. Antes de o navio zarpar, o segundo oficial, David Blair, abandonou a tripulação. Com ele, ficou um objeto fundamental: a chave do armário onde estavam os binóculos mais precisos que seriam usados pelos vigias. O operador Jack Philips não repassou o primeiro aviso que havia recebido do navio Mesaba de que havia uma área de icebergs na localização de 42° a 41°, 25’ norte; 49° a 50°, 30’ oeste. Antes de sair para o intervalo, ele não informou o substituto, Harold Thomas Cotton, sobre isso.

Em 2000, pesquisadores da Universidade Johns Hopkins analisaram a composição dos rebites do navio e descobriram que a composição das peças não era uniforme e, ao contrário do que havia sido alardeado, o material não era de primeira qualidade. Os da parte da frente e os traseiros eram apenas de ferro e foram inseridos manualmente, quando deveriam ter sido anexados por prensas hidráulicas. Economia de custos é a explicação mais plausível para o fato. O posicionamento das hélices e do leme, de acordo com Corfield, também estava fora dos padrões de excelência.

Merri Mack sobe para o deck da piscina enquanto o Balmoral se move

Lições aprendidas
Diretor do Instituto Marinho e Marítimo da Universidade de Southampton e principal expert mundial em ciência de navios, Ajit Shenoi concorda que um só fator não teria levado o Titanic para o fundo do oceano. “Houve problemas com a formação da tripulação, assim como com a comunicação entre os navios. Em segundo lugar entra a tecnologia, com poucos acessórios salva-vidas e material de construção de qualidade inferior”, diz. Para ele, a tragédia teve ao menos um lado positivo. “Depois do Titanic, várias lições foram aprendidas. A maior delas diz respeito à oferta de capacidade de salva-vidas em navios de cruzeiro, algo que não estava contido nas normas e regulamentos naquele tempo.”