Rolimã – A cultura da velocidade

Os veículos também têm sua vida cultural. É o que fica ainda mais claro em um evento como o Festival de Velocidade de Goodwood, que começou na quinta-feira e termina hoje. Goodwood reúne tudo que é mais interessante, sejam modelos que andem sobre rodas ou até parentes distantes, como aviões e helicópteros. Para destacar o

Os veículos também têm sua vida cultural. É o que fica ainda mais claro em um evento como o Festival de Velocidade de Goodwood, que começou na quinta-feira e termina hoje. Goodwood reúne tudo que é mais interessante, sejam modelos que andem sobre rodas ou até parentes distantes, como aviões e helicópteros. Para destacar o que há de mais importante no evento, separamos algumas atrações, além de histórias.

PRAZER CURTO

O principal evento realizado em Goodwood é o Festival de Velocidade, que completa 20 anos em 2013. A despeito de ter um circuito em Goodwood, o evento é realizado em uma pista de subida separada. O circuito é homenageado em outro evento, batizado como Goodwood Revival, que reúne apenas carros de pista da época em que funcionou a pleno vapor, entre 1948 e 1966. A subida de montanha mesmo tem apenas 1,86 quilômetro e nove curvas, uma curta corrida contra o tempo.

RECORDES VARIADOS

Cumprir a prova no menor tempo possível não é o único recorde que pode ser batido na subida de Goodwood. Em 2011, a Nissan colocou um Juke para fazer a prova em duas rodas. O acrobata Terry Grant fez a prova em 2 minutos e 55 segundos. Achou demais? Ele fez o mesmo outras quatro vezes. Este ano, a Nissan vai tentar entrar para o livro dos recordes, o Guinness, com um feito mais específico. Com um Leaf, o fabricante quer marcar o recorde de milha percorrida em marcha a ré em um carro elétrico. Claro que a Nissan escolheu o Leaf para encher a bola do produto. Porém, o carro tem uma vantagem prática: como elétricos não têm marchas tradicionais, pode-se atingir de marcha a ré a mesma velocidade do que indo para a frente.

FÉRIAS, ENFIM

O local é uma casa de campo em West Sussex, Inglaterra, propriedade do duque de Richmond. No terreno da mansão são realizados eventos sociais ao ar livre, o que combina com o costume britânico de aproveitar a natureza nas estações mais quentes. Entre outras tantas tradições daquela terra está o esporte a motor. O que atrai multidões ao evento, cujo público no festival de velocidade tem circulado em torno de 150 mil pessoas nos últimos anos. Muito mais divertido do que críquete.

ESCULTURAS DE MOVIMENTO

Em Goodwood, até as esculturas parecem estar em movimento. Mérito do artista plástico Gerry Judah, que desenha desde 1997 as esculturas gigantes patrocinadas. Em 2010, foi a vez de homenagear o centenário da Alfa Romeo, recriando na obra o trevo esportivo da Alfa dominado pelo histórico P2 dos anos 1930 e o mais moderno,
o 8C Competizione. Ficou até parecido com o do ano anterior, que marcava o centenário da Audi com um Auto Union Streamliner e um R8. Talvez por isso o artista tenha decidido fugir dessa ideia fixa em 2011, quando um Jaguar E-Type feito com tubulações marcava os 50 anos de lançamento do esportivo. Esse ano vários Lotus são retratados na escultura.

VETERANOS E ESTREANTES

O evento é o lugar certo para encontrar reunidos monopostos de Fórmula 1 de todas as épocas. Até os mais novos. É por isso mesmo que a data de realização nunca bate com o circo da F1, para atrair a participação oficial das escuderias. As marcas também aproveitam a multidão reunida para fazer lançamentos. A Bentley, por exemplo, leva ao evento uma versão mais esportiva do grande sedã Mulsanne, enquanto a Aston Martin estreia o novo AM310, ambas apostando nos endinheirados que circulam pelas casas de campo inglesas há séculos. A Mazda aproveitou para levar o MX-5 GT para testar a recepção do público.

UFANISMO BRITÂNICO

A Inglaterra já viveu há tempos sua grande crise industrial, que vitimou os grandes conglomerados que faziam de tudo, de aviões a carros. Sobreviveram poucas marcas realmente britânicas, talvez a Morgan. Mas o fato é que a aura de alguns fabricantes não se perdeu, pouco interessando se os verdadeiros donos da companhia estão na Alemanha ou na Índia. A Jaguar levou o conceito do F-Type para o evento, ainda camuflado. Será a primeira aparição pública do sucessor espiritual do E-Type, cujo cinquentenário reuniu modelos de todo o mundo e celebridades, como o apresentador de televisão americano Jay Leno.

TERRA SAGRADA

Além de pistas, a propriedade abriga outra instituição automotiva britânica. A sede e planta da
Rolls-Royce ficam ali. Contudo, essa tradição é recente. É que a marca só se mudou de Crewe para lá depois de 2000, quando ficou sob o controle da alemã BMW, enquanto a Volkswagen ficou com a antiga fábrica e a Bentley. De qualquer forma, é mais um motivo para uma peregrinação anual a Goodwood.

NO GRAMADO E NO AR

Durante o evento, são comuns passagens aéreas e exposição de aeronaves. São comuns voos a baixa altitude, mesmo que em aeronaves gigantescas, como o Airbus A380, além de acrobacias. Sem falar na participação da própria Força Aérea Real (RAF), que comparece em 2012 com helicópteros de ataque, como o Apache AH1. Só que a nostalgia do Festival de Velocidade e do Revival também contagiou os ares. Em setembro, será realizado o Freddie March Spirit of Aviation, que homenageia o avô do lord local, famoso também por ter sido piloto da MG nos anos 1930. Na reunião, serão agremiados 25 aviões produzidos antes de 1966, como esse Sikorsky S-38. Os outros festivais também têm espaço só para aeronaves. Com direito a homenagens. Em 2011, o homenageado aéreo foi o Supermarine Spitfire, que completou 75 anos em 2011. A trilha sonora dos motores V12 Marlin feitos pela Rolls-Royce é de emudecer qualquer coisa nas pistas.

QUANTO MAIOR, MELHOR

Não precisa ser ou parecer veloz para ser uma atração por lá. Em se tratando de um evento de entusiastas, até um motor pode ser a grande atração. É o que aposta a Cummins, que levou esse ano um motorzão de 16 cilindros e graciosos 95 litros. Isso mesmo, 15 vezes maior que o V8 6.2 do Chevrolet Camaro. São 4.055cv de potência e 1.631kgfm de torque. Dá uns 50 carros de Fórmula 1 reunidos. Àqueles interessados em trocar o small-block de seus muscle cars por uma dessas belezinhas a diesel, fica o aviso: o novo Cummins só cabe em caminhões de mineração com capacidade para mais de 400 toneladas ou em locomotivas. Além de poder alimentar, só com a sua cavalaria, mais de 3.500 casas.

TEMA DA VEZ

Cada ano um tema diferente dá o tom do evento. Em 2012, o tema é Young Guns, born to win, algo que poderia ser traduzido livremente para jovens pistoleiros nascidos para vencer. Dentro do astral saudosista de Goodwood, a homenagem não é apenas para os pilotos garotões, e sim para todos que fizeram bonito cedo, não importando a época. Por isso mesmo, serão homenageados nomes que se foram cedo, como Bernd Rosemeyer, antigo piloto de Grand Prixs e recordes de velocidade, além de lendas vivas como Emerson Fittipaldi e Valentino Rossi. A Lotus será a homenageada individual na mostra Lotus: passado, presente e futuro. Fundada em 1952, a marca completa 60 anos no mesmo ano em que Colin Chapman, seu criador, completa 30 anos de falecimento. O gênio se foi em 1982, mas seus modelos representaram bem o seu espírito. Se fosse vivo, Chapman acharia Goodwood a maior curtição.