Megarrecall – Reconhece falha, mas não faz nada

Pela primeira vez, Toyota fala publicamente sobre problemas na aceleração do Corolla brasileiro, mas não deixa claro se tomará uma medida efetiva para avisar consumidores

Deputado Délio Malheiros (de costas) questiona executivos da Toyota na Assembléia

Depois de analisar dois Corollas de consumidores que relataram sustos com o carro descontrolado ao Estado de Minas, a Toyota brasileira chegou a conclusão de que existe um problema provocado pelo tapete, que prende o pedal do acelerador e deixa o carro acelerado, consequentemente endurecendo o pedal de freio. A afirmação foi feita ontem durante audiência da Comissão de Defesa do Consumidor e do Contribuinte da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). Foi a segunda vez que a comissão se reuniu para avaliar os problemas dos consumidores brasileiros, que passam por problemas semelhantes aos ocorridos no resto do mundo, principalmente nos Estados Unidos, onde a Toyota é protagonista do maior recall da história da indústria do automóvel, com quase nove milhões de automóveis convocados para reparo (ver quadro).

Apesar de a convocação ter sido feita para o vice-presidente da Toyota Mercosul, Luiz Carlos Andrade Júnior, ele não compareceu e quem representou a fabricante foram três executivos: o gerente jurídico e representante legal, Luís Antônio Monteforte; o gerente geral para assuntos governamentais, Ricardo Machado Bastos; e o gerente geral de pós-vendas, Luiz Maggio. Os consumidores Maria do Carmo Barros de Melo, João Paulo Sena e Patrícia Correa também foram ao plenário da ALMG e relataram seus problemas mais uma vez, quando passaram apuros com o carro disparado. Na primeira audiência, no dia 9 de março ninguém da Toyota compareceu.

Três linhas

Luiz Maggio, da Toyota, explicou que os carros de Maria do Carmo e João Paulo foram avaliados e que foram consideradas três linhas de investigação para detectar o problema: travamento mecânico por agente externo, travamento do próprio pedal ou algum problema do sistema eletrônico. “Vi o tapete sem fixação correta e acredito que o que aconteceu foi o travamento mecânico, pois todos os casos partiram da mesma condição, pois o veículo se manteve acelerado partindo de uma posição parada”, afirma Maggio. Já cientes de possíveis problemas que a combinação tapete sujeito a má fixação e pedal podem provocar, o manual do Corolla tem, desde março de 2008, uma série de recomendações sobre o uso e, a partir de outubro de 2009, os tapetes originais passaram a ter uma etiqueta com instruções de uso costuradas neles.

No caso de Maria do Carmo, ela estava parada em um semáforo e, quando arrancou, o carro disparou. Já com João Paulo, o problema ocorreu duas vezes: uma em uma manobra de arrancada, em um semáforo na Avenida do Contorno; e outra em uma ultrapassagem, na Serra de Petropólis (RJ). João Paulo questiona o fato de ter comunicado o problema pela primeira vez em maio do ano passado e só agora a fábrica estar tomando medidas para tentar esclarecer o problema. Já Maria do Carmo não concorda com a avaliação da Toyota e não acredita que a aceleração foi provocada pelo tapete, que prendeu o pedal, e sim por outro problema, ainda não descoberto. Maggio fez uma explicação detalhada, com o auxílio de slides, mostrando a diferença entre o pedal usado no Brasil, fabricado pela japonesa Denso, e o que é vendido nos países em que há o recall em andamento, fabricado pela canadense CTS. Também mostrou a diferença entre os tapetes adequados para neve, mais grossos, pivôs do problema nos EUA e os tapetes brasileiros.

Desenho

Porém, somente a diferença de desenho das peças não elimina a possibilidade de problemas no Brasil. Uma das hipóteses é de que o defeito possa ser provocado por algo no sistema eletrônico, já que o acelerador é do tipo sem cabo, drive-by-wyre (eletrônico). Questionado pelo deputado Délio Malheiros, Luiz Maggio explicou que “o pulso elétrico é o mesmo, mas os princípios mecânicos são diferentes”. O NHTSA, departamento de segurança no trânsito dos EUA, solicitou ajuda da Nasa para tentar descobrir o real motivo, pois existem dezenas de casos, nos quais já se fizeram a substituição do pedal e o problema da aceleração repentina voltou a ocorrer. O NHTSA também multou a Toyota, ontem, em US$ 16,375 milhões, por omitir defeitos nos carros, já que a fábrica tinha conhecimento sobre os problemas de aceleração espontânea desde 2004 que já provocaram mais de 100 mortes.

Medidas

Com os problemas detectados, a Toyota passou uma série de determinações às concessionárias, que incluem eliminar os tapetes que não são genuínos, reforçar os procedimentos sobre o uso do tapete para os consumidores e continuar investigando qualquer solicitação sobre o tema. Porém, Patrícia Correa, que também estava presente no plenário da ALMG (devido ao problema de aceleração repentina, ela bateu o carro na garagem do prédio, provocando a perda total), diz que o tapete era um modelo não original, oferecido como brinde pela concessionária Kawaii, quando ela comprou o carro. Diz também que as presilhas de fixação, que são itens de segurança, foram cobradas e custaram R$ 2,90 quando levou o carro em uma revisão. O Corolla sinistrado de Patrícia está no pátio da seguradora e não foi feita nenhuma análise nele, mas o gerente jurídico da Toyota Luís Antônio Monteforte da Fonseca, disse que isso será feito. Assim como Patrícia, existem outros sete relatos, todos já reportados pelo Estado de Minas, que aguardam uma resposta mais clara da Toyota.

O promotor Amauri Artimus da Matta, que está investigando o caso, cobrou da Toyota uma informação mais ostensiva e de fácil percepção pelo consumidor e, ao fim da comissão, disse que vai estudar os depoimentos para avaliar qual atitude o Ministério Público Estadual pode tomar. A Toyota se comprometeu a enviar o laudo dos carros analisados para a comissão da ALMG em 45 dias. “Solicitamos à empresa que envie comunicados individuais aos compradores e realize informes públicos, por meio da grande imprensa, alertando os proprietários sobre a correta fixação das travas do tapete. Não houve recusa por parte da Toyota e, por isso, acredito que isso de fato será feito”, prevê o deputado Délio Malheiros.

Luiz Maggio, Gerente Geral de pós-vendas da Toyota, usou slides para explicar questões que intrigam até a NASA


Só Minas cobrou

Boris Feldman

Diferentemente da Toyota norte-americana, a filial brasileira continua insistindo que todos os acidentes com o Corolla nacional foram provocados pelo tapetinho. Mesmo sem ter analisado todos os casos e mesmo sabendo que, nos EUA, vários carros tiveram novamente o problema depois de recall para troca do tapete e acerto do mecanismo do acelerador. Lá, até engenheiros da Nasa foram convocados para examinar o sistema eletrônico dos carros, onde se suspeita que esteja a verdadeira origem do problema. No Brasil, a Toyota só examinou alguns dos casos ocorridos em Minas, pois só a Assembleia Legislativa de MG chamou a empresa para explicar o problema do Corolla. Mas o Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor (Ministério da Justiça) está de olho…

Entenda o caso

No resto do mundo

Nos EUA aconteceram acidentes, inclusive vários com mortes, devido a aceleração involuntária.

Primeiramente, a Toyota afirmou que o problema era o tapete, que prendia o pedal do acelerador, e fez o recall do tapete.

Depois, fez um recall alegando que o problema também poderia ser motivado por um problema no acelerador.

As vendas de oito modelos chegaram a ser suspensas até encontrar uma solução.

O recall se estendeu para a Europa e China. Outro problema, dessa vez no freio, atingiu os modelos híbridos da marca, também gerando um recall.

James Lentz, diretor de operações da Toyota nos EUA, admite que os recalls do pedal do acelerador podem não ter sido suficientes e que o problema pode ter origem eletrônica.

NHTSA informa que dezenas carros que passaram pelo recall voltaram a apresentar problemas.

NHTSA solicita ajuda da Nasa para tentar resolver o problema

No Brasil

A Toyota do Brasil nega a possibilidade de aceleração involuntária.

A empresa argumenta que o pedal utilizado aqui (Denso) é diferente dos problemáticos (CTS).

Atribui o defeito em cinco dos dez casos noticiados pelo Estado Minas à problemas de fixação no tapete.

Nos outros cinco casos não explicou a origem do problema, sendo que um desses o carro teve perda total.

A Toyota também não convocou um recall para o tapete que apresenta problema de fixação, apesar de reconhecer o problema com os consumidores.

Leia mais sobre os casos de aceleração súbita no Brasil e no mundo

Los Angeles Times aumenta a contagem de mortes causadas pelo problema para 102 fatalidades.

Leia sobre os casos brasileiros.

Leia sobre a investigação pública dos casos.