Ao fazer uma pesquisa para a conclusão de mestrado em engenharia automotiva da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli/USP), a engenheira Juliana de Freitas Queiroz descobriu que a substituição da atual frota nacional por veículos híbridos (com motores a combustíveis líquidos, como gasolina, diesel ou álcool, e elétricos), proporcionaria uma redução de até 80% da poluição veicular. Embora já existam experiências positivas no setor de pesados, os veículos híbridos de passeio ainda não estão à venda no Brasil, embora cerca de 300 mil unidades sejam comercializadas por ano no mundo.
Ela defende mais incentivos do governo brasileiro para que esse tipo de veículo se torne uma realidade no país. Nascida em Goiânia (GO), Juliana trabalhou durante seis anos na área de desenvolvimento de produtos da General Motors do Brasil e agora mora na França, onde é engenheira da empresa Alstom Transport.
Além da redução em 80% da poluição veicular, a economia seria de mais de R$ 450 trilhões por ano, nos cofres públicos. Aí, estão computados os gastos com a nova tecnologia, já que os carros são mais caros, devido aos sistemas e baterias, entre outros itens?
Não. Acontece que há diversos tipos de tecnologia, que podem ser aplicados, variando assim o custo. Portanto, não foi descontado esse valor. Considere que seria gerada essa economia no máximo, ou seja, numa perspectiva bastante otimista.
Qual foi o resultado de seu estudo quantitativo, que compara o veículo híbrido com o convencional?
O veículo híbrido é R$ 18 mil mais rentável que o veículo convencional. Para chegar a esse valor, usei fatores como redução de poluentes, de consumo (tomando como base um veículo com autonomia de 400 quilômetros, consumo de 8km/l e preço do litro de gasolina a R$ 2,70) e durabilidade (de 150 mil quilômetros) e preço do CO2 no mercado (US$ 10 a tonelada). Além desses, lancei mão de estudos de medicina, da USP, que afirmam que a capital paulista gasta US$ 3 milhões com doenças respiratórias decorrentes da poluição e levam em conta que 97% da poluição do ar é resultante das emissões veiculares.
O Brasil já conseguiu algum progresso na área de veículos híbridos pesados, como as experiências positivas de São Paulo. Por que isso ainda não ocorreu com veículos leves? É só uma questão de mercado, pois os híbridos são mais caros, ou falta também mais interesse e incentivos do governo?
As montadoras alegam que essa tecnologia não é rentável, pois o veículo é mais caro e não alcançaria boas vendas. No entanto, com incentivos do governo, poderíamos estimular as montadoras para baixar preços, tirando-se em impostos, não em tecnologia. Falta interesse do governo.
O mercado de veículos híbridos vem crescendo bastante nos Estados Unidos. A principal alavanca são os incentivos do governo?
Com certeza, pois há um desconto de até US$ 3,4 mil em cada compra de veículo híbrido. É claro que a população e a economia têm outras características, como a importância do petróleo, importado do Oriente Médio, e consciência ambiental. O governo americano está estudando diversas opções para diminuir a dependência do petróleo, e os veículos híbridos podem gozar de benefícios como a dedução de impostos de até US$ 2 mil; permissão para trafegar em faixas especiais para veículos com lotação máxima, sem estar totalmente ocupado; e o não pagamento de estacionamento, inspeção veicular e taxas de venda estadual.
Alguns especialistas criticam os veículos híbridos, dizendo que suas baterias são caras e, quando chega o momento da troca, o proprietário do carro tem que desembolsar muito. É verdade?
É parcialmente verdade. As baterias são, com certeza, mais caras, pois têm tecnologia nova, também agregada. No entanto, elas não são trocadas em um período tão curto quanto as convencionais, pois têm mais durabilidade.
O grande problema dos veículos elétricos sempre foram as baterias, pelo peso ou preço, ou porque não tinham autonomia capaz de torná-los comercialmente viáveis. Como está a evolução dessas baterias e qual a importância delas no sistema híbrido?
A importância é total, pois somente depois de implementada essa tecnologia em baterias foi possível fazer os veículos híbridos. Essa evolução continua e surgem novidades todos os dias. Hoje, esse é o desafio dos híbridos.
O veículo híbrido no Brasil poderia ser menos poluente do que em outros países, considerando-se que essa nova tecnologia se somaria à flex?
Com certeza. Agregar a tecnologia híbrida ao motor flex seria otimizar os veículos híbridos. As principais vantagens desse tipo de veículo para o Brasil seriam: melhora na qualidade de vida da população; melhora do nível tecnológico (know-how nacional), gerando oportunidade de crescimento; melhora na imagem do país em relação aos cuidados com o meio ambiente; participação internacional ativa, seguindo as tendências mundiais; evitar lobby internacional das leis de emissões; tecnologia transitória para processos mais avançados, como célula a combustível; economia; e geração de outros investimentos, com relocação da verba.
O mercado mundial de veículos híbridos ultrapassou 300 mil unidades em 2006. A Toyota lidera, seguida pela Honda, com participação tímida da Ford. Por que as montadoras americanas e européias ainda não ?compraram? essa idéia?
O Prius foi o carro do ano, em 2004, nos Estados Unidos. A produção vem aumentando a cada dia, e as empresas americanas não estão na frente. No entanto, elas já fabricam seus veículos híbridos e a tendência é aumentar.
Quais são os caminhos para a implantação e crescimento do mercado de veículos híbridos leves no Brasil?
Incentivo governamental. Tenho algumas propostas: redução de impostos sobre esse tipo de veículo, pois o preço final no Brasil agrega, em média, 33,3% de impostos, como PIS, Cofins, ICMS e IPI, enquanto em países europeus, essa carga varia entre 13,8% e 16,7%,e nos EUA, o percentual é de 6,6%; redução de impostos sobre a indústria, como instalação física (IPTU sobre o terreno), o que motivaria o desenvolvimento de uma tecnologia híbrida, voltada para o mercado brasileiro; aquisição de veículos híbridos para compor a frota governamental, o que motivaria e influenciaria o consumidor brasileiro para algo mais ambientalmente correto e mais eficiente energeticamente; campanha nacional de incentivo ao veículo híbrido, para conscientização da população; e exclusão do rodízio, uma medida exclusiva da cidade de São Paulo.