Encontro de antigos em drive-in no Alphaville foi a atração da semana

Membros de clubes de automóveis antigos se reuniram com suas preciosidades para assistir Os embalos de sábado à noite, com John Travolta

Encontro de antigos em drive-in no Alphaville foi a atração da semana Membros de clubes de automóveis antigos se reuniram com suas preciosidades para assistir Os embalos de sábado à noite, com John Travolta

Em sessão de fechada, colecionadores de antigos foram ao Alphaville assistir ‘Os embalos de sábado à noite’

 

A necessidade de espairecer em tempos de coronavírus, onde a recomendação “fique em casa” é a principal arma para evitar o contágio pela COVID-19, resultou no ressurgimento do cinema drive-in em várias cidades do Brasil. Em Belo Horizonte (tá, Nova Lima) já são dois endereços onde é possível apreciar um filme no conforto e isolamento da poltrona do seu carro. Agora, pegue essa ideia e junte a uma espécie de encontro de carros antigos – alguns deles remetem diretamente à fase de ouro dos drive-ins nos Estados Unidos – e formamos o evento da última quarta-feira (17).

Membros do Instituto Cultural Veteran Car de Minas Gerais e o Clube de Veículos Antigos de Nova Lima fecharam uma sessão do Cinear Drive-in Alphaville, reunindo cerca de 100 veículos antigos de todos os anos, estilos e nacionalidades em frente ao telão de 19 metros de largura por 8m de altura. O filme? Uma volta ao passado: Os embalos de sábado à noite, de 1977, com John Travolta. O áudio é transmitido pela faixa 88,5 FM do dial, frequência que os mais antigos nem traziam em seu rádio original. Mas isso é mero detalhe, bastando sintonizar a estação no smartphone para ouvir os diálogos.

O belíssimo Lincoln Continental de 1958 era o primeiro da fila no drive-in

O primeiro carro da fila era o Lincoln Continental 1958 de Bruno Luciano Henriques, com aproximadamente 6,20m de comprimento. Será que o imponente conversível da marca de luxo da Ford chegou a frequentar um drive-in na América? De qualquer forma, foi a primeira vez de seu proprietário neste tipo de cinema, experiência que classificou como uma oportunidade de juntar pessoas, com a devida distância, “o que é muito importante para a saúde mental”.

MUSTANG Junto com a família, Bruno também levou ao evento seu Ford Mustang 1967, tendo ao volante seu genro João Victor Barone. Sua filha, Clara Borges da Costa Henriques, conta que carros antigos são coisa de família e seu preferido é o Lincoln. Outro genro sortudo é Guilherme Luz, ao volante da Ferrari 328 GTB, de 1986, do sogro. O esportivo tem motor V8 de 340cv. Sobre a experiência do drive-in, Guilherme aprovou a ideia: “É uma oportunidade de sair de casa e ver gente, após três meses de quarentena”.

Caracterizado, o comerciante José Rosas foi ao evento com seu Ford Phaeton, de 1928

Ainda na fila, os amigos do antigomobilismo se encontram e organizam rodinhas de conversa, todos de máscara e um pouco distantes. No momento da entrada, os carros passam pelo estande das comidas e bebidas, compradas com antecedência por aplicativo, junto com o ingresso, minimizando o contato entre as pessoas. Em seguida, funcionários orientam o posicionamento dos carros de acordo com seu tamanho, para que os grandalhões não prejudiquem a visão de quem está em um carro pequeno, como um Mini ou um Fiat Cinquecento, os menores ali. Também é possível comprar pipoca e bebidas pelo aplicativo no momento do filme, bastando ligar o pisca-alerta para que os funcionários de patins identifiquem o veículo e entreguem o pedido.

José Geraldo exibiu orgulhoso o seu Chevrolet Master 1940 e a capa do vinil do filme Grease

Ainda à espera do filme começar, conversamos com Marcelo Rodrigues, economista de 43 anos, que é testemunha de um raro drive-in “com filme” que funcionava em BH nos anos 1990, na Avenida Barão Homem de Melo, na Região Oeste da cidade. A bordo de um “malvado” Pontiac Firebird Trans Am 1974, que traz um motor 455 big block de 380cv abaixo do capô adornado por um pássaro de fogo estilizado, Marcelo se recorda que havia uma caixa de som para cada carro.

NACIONAIS Um bom representante da ala de antigos nacionais presentes foi o Santa Matilde, de 1988, que trazia o motor 250 S do Opala. De acordo com seu proprietário, Alfredo Santos, o modelo faz parte das últimas fornadas e tem a dianteira um pouco diferente dos dois pares de faróis circulares tradicionais, o que o torna ainda mais raro. “Um evento onde as pessoas conseguem sair de casa, mas, ao mesmo tempo, ficam isoladas, é um alívio para quem está preso dentro de casa há um tempão. Eu só tenho a agradecer”, desabafou Alfredo.

Tinha Ferrari também, como a 328 GTB de 1986, do empresário Guilherme Luz

Também compareceram veículos antigos de outras cidades só para o evento. José Geraldo de Carvalho trouxe seu Chevrolet Master, de 1940, diretamente de Barbacena. Para entrar no clima, desenterrou um vinil do filme Grease, nos tempos da brilhantina, também estrelado por John Travolta. “Este é um street car, que é o meio termo entre um veículo original e um hot rod. Ele tem mecânica de Opala seis cilindros”, explica o proprietário, que nunca tinha ido a um drive-in.

Com seu Aero Willys, Carlos Lúcio dos Santos chegou de Ouro Preto na hora exata que o filme ia começar, e lamentou não ter visto os outros veículos. O automóvel está com ele há 20 anos e veio rodando pela estrada sinuosa que liga sua cidade à capital. “Adorei a ideia. A estrutura e a organização ficaram muito seguras”, elogiou. De Contagem, Geraldo Magela Ferreira trouxe seu Maverick GT e a namorada Lara Nídea para o drive-in. “Na época, o cara que tinha um carro desse tava com a vida arrumada. Mas não é para qualquer um lidar com a força desse motor V8 canadense. Estou igual a uma criança na noite de Natal”, comemorou.

Geraldo Magela e Lara foram ao evento com um belo Ford Maverick

PROJETO De acordo com Thays Henriques, diretora da Cineart, o projeto Cinear já existia há quatro anos. A ideia era levar o cinema para praças e museus, mas não chegou a ser implementado. O fechamento por tempo indeterminado das salas de cinema devido ao coronavírus acabou sendo determinante para tirar o projeto da gaveta e adaptá-lo ao novo cenário, onde a ideia de cada um no seu carro supre a necessidade do distanciamento. Além de uma logística que busca evitar ao máximo o contato direto entre as pessoas, os funcionários receberam treinamento e equipamentos para minimizar os riscos de contágio.

Marcelo Rodrigues levou a família ao drive-in em seu Pontiac Firebird Trans Am de 1974

Além do Alphaville, o Cinear Drive-In também está disponível no Mix Garden, no Jardim Canadá (em Nova Lima). “Temos outros projetos prontos para Belo Horizonte, como a exibição de filmes nos estacionamentos dos shoppings, mas ainda não foram aprovados. Esse projeto não tem prazo para acabar, enquanto houver demanda, vamos ter cinema no carro. O formato também pode ser retomado em edições temporárias”, explicou Thays.

João Victor e Clara Borges curtiram o filme dentro de um Ford Mustang 1967

Apesar de existir em vários países, a orígem do cinema drive-in é muito americana, onde o primeiro estabelecimento do tipo foi patenteado em 1933. Diz a lenda que seu inventor queria solucionar um problema de sua mãe, que não conseguia se acomodar com conforto nos assentos dos cinemas tradicionais. Porém, conta-se que antes disso já existiam coisas do tipo. Mas a ideia só foi tomar fôlego depois da Segunda Grande Guerra, e se popularizou mesmo no fim da década de 1950 e início de 1960.

Para além de uma grande tela, as soluções criadas para levar o áudio até os veículos foram muitas, da instalação de caixas de som individuais em cada vaga até a transmissão por frequência de rádio, que podia ser sintonizada no som de cada carro. Com o passar dos anos, vários fatores tornaram o negócio menos interessante: da crise do petróleo da década de 1970 à exploração imobiliária, que valorizou os grandes terrenos. A chegada do videocassete também pode ter contribuído, já que todos poderiam assistir aos filmes dentro de casa.

Os carros antigos foram posicionados na frente do telão às margens da lagoa

Seja como for, com o tempo o ambiente deixou de ser familiar, levando a um clima que frequentemente vemos nos filmes americanos, onde carros com vidros embaçados eram o ninho de amor dos casais apimentados. No Brasil, nunca houve uma cultura difundida de cinema drive-in, sendo que sua denominação foi apropriada para identificar um lugar um pouquinho mais seguro e discreto que uma rua, além de mais barato que um motel, para estacionar o carro e namorar.

A fila de modelos antigos chamou a atenção de quem transitava pelo condomínio

SERVIÇO
Cineart – Cinear Drive-in Alphaville
Endereço – Avenida Princesa Diana, 55, Lagoa dos Ingleses, Alphaville/Nova Lima
Cineart – Cinear Drive-in Mix Garden
Endereçoa – Rua Projetada, 65, Jardim Canadá, Nova Lima
Capacidade: 101 carros
Dias e horários: quarta-feira a domingo, às 17h45 e às 20h30
Ingressos (valor único por carro): quarta-feira, R$ 60; quinta a domingo, R$ 80
Vendas pelo app Cineart e pelo site www.cineart.com.br