O Brasil pode ganhar um novo esportivo desenvolvido para quem realmente gosta de dirigir. Apresentado ao público durante o Festival Interlagos, o DuoExo é um projeto nacional que combina baixo peso, tração traseira e uma proposta bastante purista: entregar ao motorista o máximo de controle sobre o carro, sem depender de uma série de recursos eletrônicos para intermediar a condução.
A receita é simples no papel, mas pouco comum entre os esportivos atuais. O DuoExo tem 750 kg de peso estimado e 250 cv, números que resultam em uma relação de aproximadamente 3 kg/cv. A equipe também estima 0 a 100 km/h em 5,4 segundos e velocidade máxima de 220 km/h.
Por trás do projeto está uma equipe multidisciplinar formada por sete profissionais de diferentes áreas. Fábio Birolini, engenheiro mecânico e designer, é o nome mais conhecido do grupo por ter sido responsável pelo design e projeto mecânico do Lobini H1, um dos esportivos nacionais mais emblemáticos. Geraldo Coppi, modelista industrial com passagem por Embraer e GM, responde pela modelagem da carroceria e montagem do protótipo. Matheus Nolli, designer de produto, trabalha na integração entre o desenvolvimento físico e as aplicações virtuais e também é o piloto oficial da equipe.
O time ainda conta com Tomas Almeida, engenheiro mecânico com experiência em empresas como Ford, LUK, EATON e TE Connectivity, responsável por compras e powertrain; João Paulo Melo, designer industrial com passagem por centros de design de Fiat, Marcopolo, Renault e Arrow Mobility, que cuida do desenho externo e interno; Delano Calixto, que atua nas áreas de mecânica e administração; e Victor Filgueiras, engenheiro mecânico ligado ao setor aeronáutico, responsável pelas análises estruturais e crash tests virtuais.
Mais do que os números de desempenho, porém, o projeto chama atenção pela filosofia. O carro utiliza tração traseira e não conta com controles eletrônicos de auxílio à condução, deixando o comportamento do veículo mais diretamente nas mãos do piloto. A ideia é oferecer uma experiência mais próxima dos esportivos de pista tradicionais, em que direção, acelerador, freios e transferência de peso fazem parte ativa da condução.
Motor Ford EcoBoost com FuelTech 600
A unidade exposta no Festival Interlagos utilizava um motor Ford EcoBoost, com poucas modificações em relação à configuração original. Uma das principais mudanças está no sistema de alimentação: a injeção direta original foi substituída por um sistema de injeção indireta.
O gerenciamento eletrônico do conjunto fica sob responsabilidade de uma injeção programável da FuelTech 600, solução que também permite à equipe trabalhar no desenvolvimento e na calibração do motor conforme a evolução do projeto.
A escolha por uma mecânica conhecida e com ampla presença no mercado brasileiro faz parte de uma estratégia maior. O DuoExo foi concebido para evitar a dependência de componentes exclusivos e caros, algo que pode pesar bastante no bolso de quem utiliza um esportivo importado em track days.
Segundo os criadores, a proposta é utilizar componentes com boa disponibilidade no território nacional e manter a manutenção relativamente simples. Dessa maneira, o proprietário não precisaria enfrentar a combinação de peças caras, pouca oferta e longos períodos de espera que pode acompanhar modelos de nicho importados.
DuoExo já começa a mostrar seu potencial
O potencial do projeto também começou a ser colocado à prova no Autódromo de Interlagos. Em um dos testes realizados durante o desenvolvimento, um piloto que nunca havia guiado no circuito conseguiu registrar uma volta próxima dos dois minutos.
O resultado ganha relevância porque o carro ainda estava em desenvolvimento e utilizava uma mecânica menos potente naquela ocasião. Com a evolução do projeto e os testes realizados posteriormente em laboratório, a equipe trabalha com a expectativa de alcançar uma volta de aproximadamente 1min48s em Interlagos.
Esse número, no entanto, ainda é uma meta e não um tempo oficial obtido pelo DuoExo em pista.
A equipe também afirma que os diferentes sistemas do carro foram superdimensionados, deixando margem para que o veículo seja explorado e desenvolvido além da configuração inicial.
Um esportivo para pista e também para a rua
Outro aspecto que pode tornar o DuoExo particularmente interessante é a tentativa de viabilizar seu uso nas ruas. O projeto ainda não tem homologação definitiva para circulação convencional, mas a equipe trabalha para encontrar um enquadramento que permita seu emplacamento, com a possibilidade de classificação como buggy.
A intenção, além da possibilidade de uso de um veículo normal, é criar uma situação pouco comum entre carros de track day: o proprietário poderia sair de casa dirigindo o próprio carro, chegar ao autódromo, participar das atividades em pista e depois voltar para casa rodando.
Na prática, isso eliminaria a necessidade de transportar o veículo obrigatoriamente em uma plataforma ou depender de guincho depois de um dia de pista, desde que o projeto consiga cumprir todos os requisitos necessários para circulação e homologação.
Por que "DuoExo"?
O próprio nome explica parte da proposta. "Exo" vem da estrutura baseada em um exoesqueleto, conceito que faz parte da arquitetura do veículo. Já "Duo" representa as duas possibilidades pensadas para o projeto: uma configuração destinada às pistas e outra voltada ao off-road.
A ideia é ampliar a utilização do mesmo conceito, mantendo a característica de um veículo leve e focado na condução.
Quanto vai custar?
Ainda não existe um preço oficial para o DuoExo. A equipe, porém, já estabelece um limite importante para o posicionamento do modelo: a expectativa é de que o esportivo custe menos de R$ 500 mil.
O valor definitivo dependerá da configuração final, dos custos de produção e, principalmente, dos caminhos adotados para a homologação.
Mesmo sem preço definido, o projeto mira um nicho bastante específico. A intenção não parece ser simplesmente disputar espaço com carros esportivos de luxo, mas oferecer uma alternativa nacional para quem busca desempenho e diversão em pista sem assumir os custos de aquisição e operação de um modelo importado.
Com 250 cv, apenas 750 kg, tração traseira e uma proposta de condução sem filtros eletrônicos, o DuoExo aposta em uma fórmula que parece cada vez mais rara no mercado: menos preocupação com tecnologia para impressionar e mais foco naquilo que acontece entre o piloto, o carro e o asfalto.
Se conseguir chegar à produção mantendo essa receita e ainda obtiver autorização para rodar nas ruas, o DuoExo poderá ocupar um espaço bastante peculiar no mercado brasileiro: o de um esportivo nacional que sai da garagem rodando, encara um track day e depois volta para casa pelas próprias rodas. Uma fórmula simples, visceral e cada vez mais rara entre os carros de alto desempenho que tem tudo para chamar a atenção de uma nova geração de entusiastas.
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