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Carro próprio sem juros? O consórcio virou o plano A dos jovens

Com financiamento caro e carro cada vez mais inacessível, jovens recorrem ao consórcio automotivo. Mas a conta fecha mesmo?

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Pessoa entregando a chave do carro novo na mão simbolizando a compra do carro através do consórcio.
Pessoa entregando a chave do carro novo na mão simbolizando a compra do carro através do consórcio. Foto: Reprodução Educando Seu Bolso

Por Isabel Gonçalves 

Ter um carro próprio já foi quase um rito de passagem da vida adulta. Hoje, virou um cálculo financeiro complexo. Entre preços nas alturas, juros elevados e orçamento apertado, o jovem que pensa em comprar o primeiro veículo precisa escolher não só o modelo, mas a estratégia.

Nesse cenário, o consórcio voltou a ganhar força como alternativa ao financiamento tradicional. A promessa é tentadora: comprar sem juros, com parcelas que cabem no bolso e planejamento de longo prazo.

Mas quando a gente olha além do marketing, a pergunta fica inevitável. O consórcio realmente facilita o acesso ao carro ou é só mais um jeito de se endividar?

Por que o consórcio ganhou espaço entre jovens?

O aumento do preço dos veículos e o encarecimento do crédito ajudaram a impulsionar o consórcio automotivo. Financiar um carro hoje pode significar pagar quase outro ao final do contrato.

Com taxas de juros elevadas, parcelas pesadas e exigência de entrada, o financiamento virou um compromisso difícil para quem está no início da carreira. Já o consórcio aparece geralmente com parcelas menores, descontos, mesmo que temporários, e a promessa de “compra sem juros”.

Além disso, muitos jovens demonstram resistência a dívidas com juros altos. O discurso do planejamento, da disciplina e da compra programada conversa diretamente com essa geração. Para o setor, faz sentido mirar esse público. Jovens representam contratos longos, fidelização e potencial de renovação futura.

O que faz o consórcio automotivo parecer mais atrativo?

O principal argumento é não ter juros. O que ninguém conta é que, em vez disso, existe uma taxa de administração e contribuições a um fundo de reserva que, dentre outras coisas, servem para cobrir a inadimplência dos outros consorciados. Como esses custos não aparecem com o mesmo nome e muitos nem sabem para que servem, eles causam menos rejeição. Psicologicamente, pesa menos.

Outro ponto é o valor da parcela. Em muitos casos as administradoras fazem promoção: “pague apenas metade do valor da parcela até ser contemplado”. Por isso também, mensalidades de consórcio costumam caber melhor no orçamento do que a prestação de um financiamento tradicional. Mas, o que ninguém fala é que no consórcio as prestações vão sendo reajustadas, ou seja, aumentam de valor, sendo que nos financiamentos os valores das parcelas se mantém ou até mesmo caem. 

E existe ainda a ideia da “poupança forçada”. Para quem tem dificuldade de guardar dinheiro, pagar o consórcio todo mês parece uma forma de manter a disciplina. Mas no fim, o custo continua existindo. Ele só é apresentado de forma diferente.

Consórcio de carro ou financiamento: qual pesa mais no bolso?

Para fazer a comparação correta entre consórcio e financiamento é preciso destacar a diferença no tempo de cada modalidade. No financiamento, você sai da concessionária com o carro e começa a pagar parcelas com juros. No consórcio, você começa pagando e só dirige quando for contemplado.

Vamos aos valores: 

Exemplo prático

Consórcio automotivo

  • Valor do Lance: R$50 mil

  • Carta de crédito: R$100 mil

  • Taxa de administração: 20%

  • Fundo de reserva: 3%

  • Prazo: 60 meses

Custo adicional aproximado: R$23.000 

Total pago: cerca de R$123.000 (sem contar reajustes).

Notem que a taxa de administração incide sobre o valor total da carta de crédito. Ou seja, R$100 mil, e não apenas sobre os R$50 mil restantes após o lance. Já em um financiamento, se você dá R$50 mil de entrada em um veículo de R$100 mil, os juros são calculados somente sobre os R$50 mil financiados. 

E ainda existe a correção anual da carta, que costuma acompanhar o preço dos veículos.

Financiamento de veículo

  • Valor do veículo: R$100 mil

  • Valor da Entrada: R$50 mil

  • Valor financiado: R$50 mil

  • Juros médios: 2% ao mês

  • Prazo: 48 meses

Total pago ao final: entre R$128 mil.

O financiamento parece  sair mais caro, mas você sabe exatamente o valor das prestações e quando vai receber o carro. Já o consórcio parece  custar menos no papel, mas envolve incerteza nos reajustes das prestações e na data da contemplação. Afinal, nem mesmo um lance de 50% do valor da carta de crédito te garante vitória na assembleia de consorciados.

Sorteio, lance e espera

No consórcio, a contemplação acontece por sorteio ou lance. No sorteio, todos concorrem mensalmente. Em grupos com centenas de pessoas, apenas um é contemplado por mês. 

No lance, quem oferece o maior valor adianta parcelas e aumenta as chances. Em alguns grupos, o lance vencedor pode chegar a 70% ou até 80% do valor do carro. Ou seja: para ter o veículo mais cedo, é preciso ter dinheiro guardado. 

E investir antes de comprar o carro?

Existe uma terceira alternativa pouco discutida: investir.

Se, em vez de entrar em um consórcio, o jovem investir mensalmente o valor da parcela em renda fixa rendendo próximo à Selic (por exemplo, 15% ao ano), o crescimento do dinheiro será maior do que a simples correção do valor da carta de crédito.

Além disso, investir oferece liquidez. O dinheiro pode ser usado se surgir uma emergência ou uma oportunidade melhor. Não há sorteio. Não há contrato longo. Não há risco de multa por desistência.

Para quem não tem pressa e consegue manter disciplina, investir pode ser financeiramente a melhor opção. Afinal, você não paga os juros do financiamento, nem a taxa de administração ou fundo de reserva do consórcio.

Outras alternativas para ter carro sem ser em consórcio

Existem outros caminhos, alguns mais estratégicos, outros mais imediatos, que fazem mais sentido do que um consórcio, dependendo da sua urgência, renda e perfil financeiro.

1. Financiar com entrada maior

O financiamento continua sendo a forma mais rápida de sair com o carro na hora. A diferença está na estratégia.

Dar uma entrada robusta (30%, 40% ou mais) reduz drasticamente o valor financiado e, consequentemente, os juros pagos ao longo do contrato. Não é a opção mais barata, mas pode ser a mais viável se o carro for necessidade imediata.

2. Assinatura ou aluguel de longo prazo

Hoje em dia, muita gente está percebendo que não vale a pena ter carro próprio. O carro por assinatura inclui IPVA, seguro e manutenção em um único valor mensal. Para quem quer previsibilidade e não deseja se preocupar com revenda ou desvalorização, é uma alternativa interessante.

3. Usar mobilidade sob demanda

Se não usar todo dia, talvez ter carro próprio nem seja a melhor decisão.

Aplicativos de transporte ou aluguel por diárias podem sair mais baratos do que manter um veículo parado a maior parte do tempo.

A pergunta que pouca gente faz é: eu realmente preciso de um carro… ou só estou acostumado com a ideia de ter um?

Conclusão: vale a pena fazer consórcio automotivo?

O consórcio não é vilão. Mas está longe de ser o herói das finanças. 

Ele até pode ser alternativa ao financiamento, mas não elimina custo, risco ou incerteza. Apenas muda o formato. Ou você espera mais ou tem que se desdobrar em estratégias que acabam te custando mais caro. Ah, e antes dele, vem muitas outras opções mais vantajosas. 

Antes de decidir, a questão principal não é se “tem juros” ou não. Existem outras perguntas mais importantes a se fazer, tipo: será que preciso do carro agora? Eu tenho reserva de emergência? Alugar ou assinar não são boas opções? Será que investir não faz mais sentido? 

Mais do que escolher entre consórcio ou financiamento, você precisa escolher com informação. Porque no fim, a melhor decisão não é a que parece mais leve na parcela, é a que faz sentido na vida real. Antes de contratar, confira as contas, compare e não confie só no seu corretor.